Existe uma sensação difusa, mas constante, de que o futuro encurtou. A Geração Z cresceu não apenas conectada, mas imersa em narrativas de colapso: mudanças climáticas, perda de biodiversidade, eventos extremos cada vez mais frequentes. Não é mais uma ameaça distante, e sim um pano de fundo permanente. Isso altera o cerne de qualquer construção profissional: a relação com o tempo. Planejar a longo prazo, que sempre foi um dos pilares para uma carreira sólida, passa a parecer quase um ato de ingenuidade quando o mundo inteiro parece instável.
Nesse contexto, a Medicina Veterinária: uma profissão que exige formação contínua, maturação técnica e visão de longo prazo entra em tensão direta com essa lógica. Como investir anos em especialização, posicionamento e construção de reputação se a percepção dominante é de urgência? A resposta que muitos encontram, ainda que de forma inconsciente, é simples: acelerar. Até porque parece o único possível. Crescer rápido vira sinônimo de segurança, mesmo que seja uma segurança ilusória.
As redes sociais amplificam esse cenário de forma obscena. Elas nos enganam, mostrando resultados impossíveis, e o pior, elas comprimem o tempo. Carreiras que levaram anos para se estruturar aparecem em segundos, editadas, organizadas e embaladas como histórias de sucesso contínuo. O algoritmo privilegia o que chama atenção. E, ao fazer isso, cria uma distorção perigosa: a de que evoluir devagar é sinônimo de fracasso. O que não aparece, dúvida, erro, recomeço, deixa de existir como referência.
O resultado é uma geração que vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que deseja a mesma estabilidade dos pais, opera em lógica de curto prazo. Decisões de carreira passam a ser guiadas menos por estratégia e mais por validação imediata: o que engaja, o que cresce, o que parece funcionar. Isso não apenas fragiliza trajetórias profissionais, como também aumenta a ansiedade. Afinal, é impossível sustentar, por muito tempo, uma carreira baseada em comparação constante e sensação de atraso.
A crise ambiental e a crise de carreira, portanto, se encontram em um ponto comum: ambas desorganizam a capacidade de projetar o futuro. Uma pelo medo do que pode acontecer, a outra pela pressão do que parece já estar acontecendo com todos ao redor. E no meio disso, o profissional Gen Z tenta construir identidade, propósito e estabilidade em um terreno que não estabiliza.
Talvez o desafio não seja eliminar a incerteza (acho que isso nunca foi possível), mas aprender a não reagir a ela com imediatismo. Em um cenário onde tudo incentiva velocidade, a capacidade de sustentar processos, fazer escolhas conscientes e construir no longo prazo se torna, paradoxalmente, um diferencial competitivo. Porque, no fim, mesmo em um cenário instável, precisamos pensar em construir carreiras sólidas da mesma forma que as gerações anteriores: com direção, critério e tempo.
Por Luís Felipe Seabra Médico veterinário, fundador da Agência de Marketing Veterinário VetDesenvolve e membro da Comissão Nacional de Jovens Médicos Veterinários e Zootecnistas do CFMV
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