Esses dias eu bati o olho num post que parecia profundo o suficiente pra virar daqueles que a gente compartilha nos stories com um “precisamos falar sobre isso”. A pergunta era simples: se todo mundo está cansado de consumir e criar conteúdo, como a gente reconstrói uma rede social mais saudável? Bonita, redonda, quase confortável. O tipo de reflexão que dá a sensação de consciência sem exigir mudança. Só que, quanto mais eu pensava, mais uma outra pergunta me incomodava: quem é esse “todo mundo”? Porque, sinceramente, não parece que a gente está cansado. Parece que a gente está viciado.
A rotina é sempre a mesma, e ninguém questiona mais. Acorda, abre o Instagram, rola o feed como quem procura alguma coisa e nem sabe o quê. Em poucos minutos você já viu alguém lançando curso, outro mostrando uma clínica impecável, outro com uma rotina produtiva que parece saída de um roteiro e, claro, aquele caso clínico bonito o suficiente pra virar conteúdo. E pronto. O dia nem começou direito e você já está se sentindo atrás. Não porque você realmente esteja, mas porque entrou num jogo onde a sensação de insuficiência é parte do mecanismo.
É confortável culpar os influencers da veterinária. Dizer que só mostram o lado bonito, que vendem uma realidade inalcançável, que transformaram a profissão em vitrine. Mas a outra metade é bem menos elegante: eles só fazem o que funciona. E quem ensinou o que funciona fomos nós. O algoritmo não inventa comportamento, ele amplifica padrão. E o padrão que a gente reforça, todos os dias, não é o conteúdo que faz crescer. É o conteúdo que prende. E o que prende, na maioria das vezes, é o que provoca comparação.
A lógica é quase perfeita, e por isso tão perigosa. Você consome algo que te faz sentir insuficiente, e isso te dá um impulso imediato de mudança. “Preciso me posicionar melhor.” “Preciso aparecer mais.” “Preciso mostrar meu trabalho.” E aí você começa a produzir. Mas não produz o que vive, produz o que aprendeu que performa. Ajusta o tom, molda a narrativa, seleciona o que entra e o que fica de fora. Quando percebe, você já está se apresentando. E aí acontece a virada mais silenciosa de todas: você se transforma exatamente no tipo de perfil que, pouco tempo atrás, te cansava.
O problema nunca foi a rede social. O problema é o que a gente virou dentro dela. A gente não está cansado de conteúdo. Está cansado de sustentar personagem. Cansado de parecer mais do que é, de viver uma versão editada da própria vida, de transformar rotina em performance contínua. E o mais curioso é que isso não acontece de forma consciente. Não tem um momento exato em que você decide “agora vou me tornar artificial”. Vai acontecendo aos poucos, na tentativa de se encaixar, de crescer, de não ficar para trás. Até que um dia você abre o próprio perfil e ele está bonito, organizado, coerente, mas não parece seu.
Dentro da medicina veterinária, isso ganha uma dimensão ainda mais crítica, porque não estamos falando só de estética ou estilo de vida. Estamos falando de formação, de carreira, de referência profissional. A gente está criando uma geração que sabe gravar vídeo, editar reels,
construir autoridade digital, mas que, muitas vezes, não sabe lidar com frustração, erro, insegurança, rotina real de trabalho. Porque isso não aparece. E quando aparece, não performa. Não gera engajamento, não cresce, não vende. Então é descartado.
E não, o problema não é vender. Nunca foi. O problema é quando tudo vira vitrine e nada vira troca de verdade. Quando tudo vira produto e nada vira construção. Quando a lógica deixa de ser compartilhar para se tornar provar o tempo todo que você merece estar onde está ou que merece chegar onde ainda não chegou.
Existe uma pergunta que pouca gente tem coragem de fazer, porque a resposta geralmente incomoda: você consome o tipo de conteúdo que diz que quer ver? Ou você diz que quer profundidade, mas passa horas assistindo exatamente aquilo que te prende pela superficialidade? Porque o algoritmo é cruel. Ele aprende com o que você faz, não com o que você diz.
Talvez, então, a pergunta inicial esteja errada. Não é sobre como reconstruir uma rede social mais saudável. É sobre o que cada um precisa parar de consumir para parar de se sentir assim. Porque enquanto você continuar alimentando o tipo de conteúdo que te adoece, vai continuar tentando produzir conteúdo para se provar. E isso não tem fim. É um ciclo que se retroalimenta, onde todo mundo participa e ninguém assume responsabilidade.
Num cenário em que a inteligência artificial está cada vez mais presente, automatizando discurso, estética e até comportamento, talvez o maior diferencial não seja produzir mais, nem melhor, nem mais rápido. Talvez seja mais simples e, por isso mesmo, mais difícil. Talvez seja ter coragem de não performar o tempo todo. De ser humano de verdade, inclusive quando isso não engaja, não viraliza, não cresce.
Curiosamente, é exatamente esse tipo de conteúdo que quase ninguém tem coragem de postar. Mas é o único que, de fato, faria alguém parar de rolar o feed por um segundo e pensar: finalmente, algo que parece real.
Plataforma Guardião do Cuidado da Biovet completa 2 anos com foco em conhecimento e benefícios para médicos-veterinários
A plataforma Guardião do Cuidado, da Biovet, completa dois anos oferecendo conteúdos técnicos, treinamentos, eventos e benefícios exclusivos para médicos‑veterinários, com foco em apoiar a rotina clínica e o bem‑estar profissional.
Em apoio ao Abril Laranja, Adimax reforça combate a maus-tratos aos animais com embalagens especiais
Em apoio ao Abril Laranja, a Adimax lança embalagens especiais da linha Magnus Todo Dia para reforçar a conscientização contra maus‑tratos aos animais, destacando seu compromisso com o bem‑estar animal ao longo do mês de abril.
Qualidade da formação em Medicina Veterinária é destaque em seminário nacional promovido pelo CFMV
Seminário do CFMV debate a qualidade da formação em Medicina Veterinária, com foco em acreditação, diretrizes curriculares, uso da IA no ensino e saúde mental de estudantes, docentes e residentes.
Boleto
Reportar erro!
Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página: