Notícias

Dirofilariose canina não é exclusiva do litoral: caso em Minas Gerais reforça a necessidade de testagem e de prevenção contínua no interior

Linkedin

Escrito por Vet Conecta

04 NOV 2026 - 09H00

A dirofilariose canina, conhecida como verme do coração, já foi registrada nas cinco regiões do país, mas sua distribuição segue pouco mapeada. Um caso atendido em Monte Carmelo, no Triângulo Mineiro, e dados de atendimentos no Rio Grande do Norte reforçam, segundo especialistas ouvidos por O Tempo, que a doença não se restringe a cidades à beira-mar e precisa entrar no diagnóstico diferencial de problemas cardíacos e respiratórios em cães.

O caso de Monte Carmelo (MG)

Uma cadela sem raça definida, de seis anos e 15 kg, foi atendida em agosto de 2025. O primeiro sinal foi inchaço no rosto, seguido de perda de peso, apetite e disposição, além de tosse e dificuldade para respirar. O animal era vacinado contra viroses e raiva, mas não havia registro de vermifugação nem de medidas contra ectoparasitas.

Ao analisar material retirado da região inchada, a equipe encontrou uma estrutura compatível com o parasita, o que fortaleceu a suspeita. O diagnóstico, porém, veio tarde: após cerca de sete dias de internação, a cadela morreu. O veterinário José Marques de Aquino Neto, professor da Unifucamp, afirmou que um diagnóstico mais precoce poderia ter ampliado as chances de tratamento, sem garantir outro desfecho. Ele também alerta que um único caso não comprova transmissão local, o que exigiria investigar outros cães e a presença dos mosquitos transmissores.

Doença progressiva e silenciosa no início

A dirofilariose é causada pelo parasita Dirofilaria immitis, transmitido por picada de mosquitos. As larvas chegam às artérias pulmonares, onde amadurecem, e o ciclo até a fase adulta dura cerca de seis a sete meses. Segundo Alexandre Bendas, diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia Veterinária, os danos são cumulativos: quanto mais tempo os vermes permanecem, maior a inflamação dos vasos, a hipertensão pulmonar e a sobrecarga do coração, e alguns efeitos podem persistir após a eliminação dos parasitas.

Por isso, Bendas recomenda testagem periódica mesmo em cães aparentemente saudáveis que vivem ou frequentam áreas de risco. A infecção também não gera imunidade: um cão tratado pode ser infectado novamente, e a prevenção deve ser mantida.

Tratamento vai além de eliminar os vermes

O tratamento depende da gravidade e inclui controle de complicações como hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca direita, inflamação pulmonar e tromboembolismo. Os protocolos podem incluir medicamentos cardiovasculares, controle da inflamação, restrição de exercícios e acompanhamento clínico rigoroso.

No Brasil, a melarsomina, considerada o adulticida padrão-ouro internacional, não está disponível. Os especialistas usam protocolos alternativos, que combinam prevenção contínua com tratamentos que reduzem gradualmente a carga de parasitas. Em casos graves, como a síndrome da veia cava, pode ser necessária a remoção cirúrgica dos vermes.

O que mostram os dados

A dirofilariose canina ainda não é de notificação compulsória no país. Na Ufersa, em Mossoró (RN), foram confirmados 18 casos positivos em 185 exames de ecocardiografia entre abril e junho de 2026 e 15 cães com microfilárias em cerca de 200 atendimentos de clínica médica. Os números valem apenas para os animais atendidos pela instituição e não permitem estimar a prevalência regional.

Uma revisão publicada em 2024 reuniu estudos de 2014 a 2024 e encontrou resultados muito variados, como 58,6% de 157 cães infectados em Niterói (RJ), 44,4% de 99 em Lábrea (AM) e 3,7% de 766 em Manaus (AM). Uma das autoras, Marianna Laura Elis Chocobar, da Unesp, afirma que a doença é emergente, com locais de prevalência muito alta e outros sem dados.

Por que o litoral deixou de ser a única referência

A concentração de estudos no litoral ajudou a criar a ideia de que a doença ficaria restrita à costa. Segundo Marianna, o fator decisivo é a presença de mata preservada e de massas de água, já que os mosquitos precisam de água parada. Ela afirma ainda que o parasita precisa de mais de 27 °C para completar seu ciclo. Bendas aponta que a presença da doença depende de mosquitos capazes de transmiti-la, cães infectados como reservatório e condições ambientais favoráveis, fatores presentes em várias regiões do interior. Cães que viajam com tutores para áreas endêmicas também podem voltar infectados.

O que muda para a rotina clínica

• Considerar a dirofilariose no diagnóstico diferencial de doenças cardíacas e respiratórias, mesmo longe do litoral;

• Confirmar um teste rápido positivo com exame de imagem, como orienta o médico-veterinário João Marcelo;

• Discutir prevenção contínua com o tutor, inclusive em cães que viajam;

• Lembrar que a doença é de Saúde Única, já que o controle do mosquito também ajuda a prevenir outras doenças transmitidas por vetores.

Para clínicas e hospitais veterinários, o caso reforça a importância de ampliar a testagem e a conversa sobre prevenção com tutores do interior, enquanto a vigilância e o mapeamento da doença avançam.

Fonte e crédito

Portal: O Tempo | Autoras: Litza Mattos e Nubya Oliveira | Data: 02/11/2026

Link: https://www.otempo.com.br/brasil/2026/11/2/verme-do-coracao-nao-esta-so-no-litoral-caso-de-cao-em-mg-expoe-mapa-ainda-desconhecido-da-doenca

Texto reescrito pela equipe do VET Conecta

Boleto

Reportar erro!

Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Vet Conecta, em Notícias

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.

Enviar por e-mail