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Emilly Takamoto

Por que os répteis dependem tanto da temperatura ambiente? A ciência por trás da cobra Gary, de Zootopia 2

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Escrito por Emilly Takamoto

20 MAI 2026 - 15H00 (Atualizada em 20 MAI 2026 - 17H51)

Se você já viu um lagarto imóvel tomando sol sobre uma pedra ou uma serpente posicionada em um local aquecido, saiba que isso está longe de ser preguiça. Para os répteis, alcançar a temperatura ideal não é apenas uma questão de conforto, mas um fator essencial para a sobrevivência.

Essa característica aparece de forma divertida em Zootopia 2, quando a cobra Gary demonstra dificuldade para se manter ativa em ambientes frios. Apesar do tom cômico, a cena representa um fenômeno biológico real: em baixas temperaturas, muitos répteis apresentam redução importante da atividade metabólica e locomotora.

Enquanto mamíferos e aves mantêm temperatura corporal relativamente constante por meio da produção interna de calor, os répteis dependem predominantemente de fontes externas para aquecer ou resfriar o organismo. Embora também produzam calor metabólico, essa produção não é suficiente para manter a homeotermia de forma independente do ambiente.

O que significa ser ectotérmico?

Os répteis são ectotérmicos, ou seja, dependem do ambiente para regular sua temperatura corporal, associando essa dependência a ajustes comportamentais e fisiológicos.

Essa característica influencia diretamente digestão, atividade muscular, frequência cardíaca, ventilação pulmonar, atividade neural e resposta imunológica.

Isso ocorre porque enzimas e vias metabólicas possuem uma faixa térmica ideal de funcionamento. Quando a temperatura corporal está adequada, reações bioquímicas ocorrem com maior eficiência. Já em temperaturas baixas, há redução da taxa metabólica, comprometendo diferentes processos fisiológicos.

Como consequência, observa-se lentificação digestiva, redução da frequência cardíaca, menor eficiência muscular, desaceleração da condução nervosa e comprometimento da resposta imunológica.

Em outras palavras, um réptil exposto ao frio não está apenas “mais lento”: seu metabolismo como um todo está funcionando abaixo da faixa ideal.

Por que isso é vantajoso?

À primeira vista, depender do ambiente pode parecer uma desvantagem. Evolutivamente, porém, a ectotermia representa uma estratégia de alta eficiência energética.

Como não precisam investir continuamente grandes quantidades de energia para produzir calor interno, os répteis apresentam menor demanda calórica e conseguem sobreviver com menos alimento quando comparados a mamíferos de tamanho semelhante.

Essa eficiência ajuda a explicar por que serpentes conseguem permanecer longos períodos sem alimentação e por que diversos répteis prosperam em ambientes desafiadores, como desertos, savanas e regiões semiáridas.

Enquanto um mamífero precisa gastar energia constantemente para manter a temperatura corporal, os répteis utilizam o calor já disponível no ambiente como recurso fisiológico.

Como os répteis trocam calor com o ambiente?

Por dependerem do ambiente externo, os répteis utilizam diferentes mecanismos de troca térmica.

  • Radiação consiste na absorção direta de energia solar. Lagartos frequentemente realizam basking, comportamento de exposição ao sol para elevar a temperatura corporal e ativar o metabolismo.
  • Condução ocorre por contato direto com superfícies aquecidas ou frias. Uma serpente posicionada sobre rochas aquecidas absorve calor dessa forma.
  • Convecção corresponde à troca térmica com ar ou água circundantes, influenciando ganho ou perda de calor.

Por meio desses mecanismos, répteis realizam termorregulação comportamental, alternando entre microambientes quentes e frios ao longo do dia para manter a temperatura corporal dentro de uma faixa funcional adequada.

Desvantagens e limitações

Temperaturas inadequadas comprometem diretamente funções fisiológicas. Em condições frias, répteis podem apresentar anorexia, digestão ineficiente, redução locomotora, comprometimento imunológico e maior susceptibilidade a enfermidades oportunistas.

A digestão é particularmente dependente de temperatura adequada. A redução térmica diminui a motilidade gastrointestinal, prolonga o tempo digestivo e pode

prejudicar a absorção de nutrientes. Isso explica por que serpentes frequentemente buscam áreas aquecidas após alimentação.

O sistema cardiovascular também sofre influência importante: em baixas temperaturas, há redução da frequência cardíaca, frequência respiratória e consumo de oxigênio.

Na medicina veterinária de animais exóticos, esse aspecto possui grande relevância clínica. Gradientes térmicos inadequados em cativeiro podem predispor retenção alimentar, impactação gastrointestinal, hiporexia e maior predisposição a processos infecciosos.

Por isso, manejo térmico adequado não representa apenas conforto ambiental, mas parte fundamental da manutenção da saúde desses pacientes.

Exemplos na vida real

Esse fenômeno pode ser observado em diferentes espécies.

O dragão-de-komodo costuma realizar exposição solar nas primeiras horas do dia antes de iniciar atividades. A iguana-verde alterna entre sombra e sol ao longo do dia para manter a homeostase térmica. Serpentes como a jiboia frequentemente buscam superfícies aquecidas após alimentação, favorecendo digestão mais eficiente. Até tartarugas aquáticas realizam basking sobre troncos e rochas para otimizar processos metabólicos.

Gary estava cientificamente correto?

De certo modo, sim. A representação de Gary em Zootopia 2 transforma um conceito complexo de fisiologia em um recurso visual acessível e divertido.

Sem temperatura adequada, muitos répteis realmente apresentam redução metabólica importante, menor atividade locomotora e prejuízo fisiológico relevante.

Gary pode ser um personagem cômico, mas seu desconforto no frio ilustra de forma bastante fiel um dos princípios mais interessantes da fisiologia reptiliana: para esses animais, sobreviver depende de uma relação constante e estratégica com a temperatura do ambiente.

Referências

POUGH, F.; JANIS, C. M.; HEISER, J. B. A vida dos vertebrados. 4. ed. São Paulo: Atheneu, 2008. SCHMIDT-NIELSEN, K. Fisiologia animal: adaptação e meio ambiente. 5. ed. São Paulo: Santos, 2010. BÍCEGO, K. C.; GARGAGLIONI, L. H. Fisiologia térmica de vertebrados. 2020.

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