Na minha atuação com profissionais do setor PetVet, existe um cenário recorrente e que atribuímos à falta de educação do outro, mas que merece uma reflexão sobre como a nossa vida se configura atualmente. É noite, o expediente terminou há horas, e o celular acende com a mensagem de um responsável; às vezes uma dúvida simples, às vezes a foto de uma ferida, às vezes apenas a pergunta de quem quer ser tranquilizado. O profissional olha a tela e, antes de qualquer decisão consciente, já está calculando o custo de não responder.
Esse cálculo, repetido todos os dias, é o que sustenta uma forma de adoecimento que raramente chega ao consultório com esse nome. Ele se apresenta como cansaço difuso, como irritação que não se explica, como a sensação de nunca ter saído de fato do trabalho. E, na maior parte das vezes, é tratado como uma falha de quem não consegue impor limites, e não como aquilo que de fato é: uma condição estrutural da forma como o trabalho passou a ser organizado.
A Medicina Veterinária sempre conviveu com a urgência. O que mudou não foi a existência do imprevisto, mas a expectativa de que ele possa ser atendido a qualquer hora, por qualquer canal, sem que exista mais uma fronteira clara entre o que é o expediente e o que está fora dele. O aplicativo de mensagens, que entrou na rotina como ferramenta de praticidade, terminou por dissolver a porta e o horário que antes delimitavam o exercício da profissão. O profissional não fecha mais o consultório; ele o carrega no bolso.
A psicologia do trabalho tem um nome para o estado mental que essa dinâmica produz. Chama-se telepressão: a preocupação persistente e o impulso de responder rapidamente às mensagens, mesmo quando nada na situação concreta exige resposta imediata. Podemos refletir em uma compulsão de baixa autonomia, vivida como obrigação e não como escolha. Pesquisadores norte-americanos que estudaram o fenômeno verificaram que a telepressão se associa a uma menor satisfação com o equilíbrio entre vida e trabalho, e que o mecanismo por trás dessa relação é o prejuízo do desligamento psicológico, isto é, a capacidade de afastar mentalmente os pensamentos sobre o trabalho quando se está fora dele. Entre as várias formas de recuperação examinadas, foi justamente o desligamento que se mostrou o elo mais consistente, o que permite localizar com alguma precisão onde a disponibilidade permanente machuca.
Vale deter-se nesse ponto, porque é nele que a disponibilidade permanente faz seu estrago mais específico. Não é apenas o tempo gasto respondendo que pesa; é a impossibilidade de desligar a atenção, de estar inteiramente em outro lugar. O corpo está no jantar, na consulta médica do próprio filho, na caminhada de fim de tarde, mas uma parte da mente segue de prontidão, à espera da próxima notificação. O descanso deixa de ser descanso quando nunca chega a se completar, e é justamente essa recuperação interrompida que a literatura aponta como o elo entre a conexão constante e o esgotamento.
No entanto, as mesmas pesquisas que descrevem os efeitos negativos do uso de mensagens fora do horário reconhecem que esse uso pode trazer algum ganho, de informação, de coordenação, de pertencimento profissional. Um estudo realizado na Alemanha mostrou que recorrer às tecnologias de comunicação no tempo de descanso, movido pela telepressão e pelo receio de perder algo relevante, prejudica o desligamento e aumenta o estresse percebido, ainda que possa, ao mesmo tempo, gerar a sensação de benefício informacional. O desafio está na ausência de qualquer acordo sobre quando e como essa disponibilidade se desliga. Quando a disponibilidade vira norma tácita, sem que ninguém a tenha decidido, ela se converte em demanda silenciosa, que gera adoecimento.
Aqui chega o aspecto que considero decisivo, e que costuma escapar quando o assunto é debatido apenas como uma questão de hábito pessoal. A pesquisa sobre bem-estar de veterinários é consistente em identificar o equilíbrio entre vida e trabalho como um dos principais fatores associados a melhor saúde mental e a menor esgotamento. Um amplo levantamento conduzido nos Estados Unidos com milhares de médico-veterinários apontou esse equilíbrio como o preditor mais forte de bom bem-estar e de menor esgotamento na profissão. E uma pesquisa holandesa recente, ao discutir o tema como preocupação central, foi além e propôs, entre suas recomendações, a limitação das expectativas de comunicação fora do horário de expediente. Ou seja: há literatura científica, dentro do próprio setor, que trata a proteção dessa fronteira não como conselho de bem-estar individual, mas como medida de organização do trabalho.
Faço uma ressalva que me parece necessária. Esses estudos, conduzidos nos Estados Unidos, na Alemanha e na Holanda, refletem realidades de trabalho distintas da brasileira, e seus números não descrevem o que se passa nas clínicas daqui. Eles servem para nomear o mecanismo e para legitimar a discussão, não para transpor estatísticas. Ainda assim, o que observo na minha atuação com profissionais do setor PetVet conversa com o que essa literatura aponta: a dificuldade de se desligar raramente é vivida como escolha, e quase sempre carrega uma culpa que pertence menos ao indivíduo do que à expectativa que o cerca.
Reconhecer isso muda o lugar do problema. Enquanto a disponibilidade permanente for tratada como uma questão de disciplina, a saída se reduz a pedir que cada profissional aprenda, sozinho, a resistir ao impulso de responder, o que é tão eficaz quanto pedir que alguém durma melhor sem alterar nada do que o mantém acordado. O limite que protege o descanso não se sustenta apenas na força de vontade de quem está exausto; ele depende também de decisões que cabem às clínicas, às instituições do setor e às próprias entidades profissionais, sobre o que se considera aceitável esperar de um médico-veterinário fora do seu horário.
O que proponho é que, em vez de perguntar por que esse profissional não consegue largar o celular, talvez seja mais honesto perguntar por que a profissão passou a considerar normal que ele nunca pudesse largá-lo. A primeira pergunta produz culpa; a segunda, a possibilidade de uma conversa que ainda está por ser feita, sempre considerando cada indivíduo e cada caso.
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