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Desvendando os Segredos do Calicivírus Felino (FCV): Insights essenciais sobre a doença

Escrito por Luan Stefani

26 JUN 2024 - 16H08





Mas afinal o que é o Calicivírus felino? Quais as principais características que nós, médicos veterinários, precisamos saber?

O calicivírus felino (FCV) é um vírus de sorotipo único, notável por sua ampla diversidade antigênica entre as diferentes cepas, resultando em uma virulência significativamente variável. Esta diversidade decorre do fato de o FCV ser um vírus de RNA de fita simples, que não possui mecanismos de correção durante a replicação, o que contribui para uma alta taxa de mutação e um elevado potencial evolutivo. Morfologicamente, as partículas de calicivírus têm formato hexagonal com depressões em forma de cálice e não possuem envelope, apenas o capsídeo. A ausência de envelope obriga o vírus a utilizar estratégias alternativas para a entrada nas células hospedeiras e aumenta sua resistência no ambiente. As principais portas de entrada do FCV são as vias nasais, oral e conjuntival, com a região orofaríngea sendo o principal local de replicação. O vírus afeta principalmente as células epiteliais, induzindo necrose celular e causando úlceras na língua e em outras áreas da cavidade oral. Além das lesões bucais, o FCV também pode afetar o trato respiratório superior e as articulações, levando a casos de claudicação. Além disso, recentemente foi descrita a participação do calicivírus felino na vasculite generalizada, comprometendo múltiplos órgãos e resultando em mortalidade de até dois terços dos gatos afetados.

Mas outras espécies também podem ser afetadas? E como a sua transmissão ocorre?

Até o momento, não há relatos de outros animais, além dos pertencentes à família Felidae, que atuam como reservatórios ou hospedeiros alternativos para o calicivírus felino (FCV), indicando que este vírus não possui potencial zoonótico. A infecção por FCV é alta em grupos com maior densidade populacional de gatos, incluindo aqueles considerados saudáveis. Estudos epidemiológicos mostram que a alta prevalência desse microrganismo em grupos de gatos se deve à presença de animais com infecção persistente e à reinfecção de outros membros com cepas idênticas ou distintas. Além disso, pode ocorrer coinfecção por diferentes cepas em um mesmo indivíduo, favorecendo a recombinação gênica entre os vírus e aumentando a variabilidade viral. Esse fenômeno é particularmente comum em ambientes de abrigos para gatos, devido à grande rotatividade dos animais e à alta densidade populacional. A transmissão deste patógeno pode ocorrer de forma direta, por meio do contato com secreções de animais infectados, ou de forma indireta, através de fômites, uma vez que o vírus resiste bem no ambiente por um tempo considerável.

Qual a sintomatologia observada? Os sinais clínicos são evidentes?

A sintomatologia da infecção pelo calicivírus felino (FCV) varia conforme a cepa viral, a idade do gato acometido e os fatores de manejo envolvidos. Embora muitos animais desenvolvam uma infecção subclínica, outros frequentemente apresentam síndrome de úlceras na língua e acometimento do trato respiratório de forma aguda, mas geralmente leve. Em casos de doença respiratória mais grave, é comum observar a presença do complexo respiratório felino, indicando coinfecção com outros microrganismos. Os sinais clínicos recorrentes incluem úlceras orais, secreção nasal serosa, espirros, febre e anorexia, decorrentes das úlceras orais. Além disso, pode ocorrer o desenvolvimento de pneumonia, úlceras de córnea e claudicação, esta última pelo acometimento das articulações sinoviais dos gatos.

A infecção virulenta sistêmica felina causada pelo calicivírus apresenta sinais clínicos muito variáveis. Diferente das cepas comuns, essas cepas são responsáveis por desenvolver uma síndrome inflamatória sistêmica grave, presença de coagulação intravascular disseminada, e, consequentemente, falência de múltiplos órgãos, frequentemente resultando no óbito do animal.

E como devemos realizar o diagnóstico? Quais exames solicitar?

Deve-se notar que resultados positivos para o FCV devem ser muito bem analisados, em decorrência da existência de portadores assintomáticos e da baixa correlação entre o vírus e os sinais clínicos. No entanto, o FCV virulento sistêmico apresenta sinais clínicos muito evidentes e seu diagnóstico pode ser feito a partir desta análise. A existência das mesmas cepas virais em gatos doentes, a elevada contagiosidade e mortalidade são alguns deles.

Para a correta detecção podem ser utilizadas técnicas como a PCR, capaz de detectar o RNA viral na conjuntiva, além de esfregaços orais, de raspados de pele. Mas a sensibilidade do diagnóstico dependerá da cepa e dos primers utilizados, dessa forma, os ensaios moleculares devem ser comparados com várias cepas a fim de diminuir as chances de um falso-negativo. No entanto, infelizmente ainda não existem marcadores genéticos diretamente relacionados com a virulência, principalmente as cepas virulentas sistêmicas.

O isolamento de vírus também é útil no diagnóstico e, para isso, é necessária a coleta de uma amostra a partir de esfregaços nasais, conjuntivais ou orofaríngeas. Porém fatores como o baixo número de vírions na amostra, a sua inativação durante o transporte e a presença de anticorpos atrapalham sua replicação in vitro. É de conhecimento que as coletas a partir de esfregaços na conjuntiva ou na orofaringe aumentam as chances de sucesso do isolamento. Também é bastante interessante a detecção combinada entre o isolamento do vírus e posterior PCR.

A detecção de anticorpos pode ser realizada a partir da neutralização ou ELISA, mas geralmente os anticorpos são elevados por causa da infecção e da vacinação. Assim, a presença de anticorpos específicos não é muito útil para a detecção da doença, além disso muitos falsos-negativos são dados, tornando sua detecção mais complicada.

Se a doença for confirmada, como prosseguir?

Na maioria dos gatos infectados por FCV, não será necessário um tratamento específico. No entanto, para aqueles que desenvolvem sintomas mais graves, é imprescindível a realização de uma terapia de suporte. É comum que os animais infectados apresentem dificuldade para se alimentar devido às úlceras na cavidade oral, necessitando de estratégias para tornar a comida mais atrativa e, em alguns casos, até o uso de estimulantes de apetite. Devido à febre e à dor, podem ser utilizados anti-inflamatórios. Além disso, o tratamento de infecções bacterianas secundárias é realizado com o uso de antibióticos, como a doxiciclina.

Medidas amigáveis aos felinos (cat-friendly) são altamente eficazes para reduzir o estresse, prevenindo a imunossupressão e, consequentemente, a suscetibilidade a infecções futuras. Além desse manejo comportamental, é essencial manter o ambiente em que o felino reside rigorosamente higienizado, evitando a proliferação de microrganismos. Ao introduzir um novo animal em um ambiente com outros gatos, é necessário adotar precauções adicionais para evitar a contaminação. De acordo com as diretrizes mais recentes, recomenda-se vacinar todos os gatos contra o calicivírus felino. Embora a vacinação não impeça completamente a infecção ou a disseminação do FCV, ela é muito eficaz em atenuar a gravidade da doença e reduzir a taxa de infecção entre os gatos.

Dessa forma, torna-se bem evidente a importância do diagnóstico preciso e do manejo adequado na prevenção e no tratamento do FCV, medidas como a vacinação e a terapia de suporte se mostram essenciais. Além do inquestionável papel dos médicos veterinários na saúde e bem-estar desses bichinhos que tanto amamos.

REFERÊNCIA

1. ADDIE, Diane, et al. Feline infectious peritonitis. ABCD guidelines on prevention and management. Journal of Feline Medicine & Surgery, 2009, 11.7: 594-604.

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3. GERRIETS, Wiebke, et al. Feline calicivirus: a neglected cause of feline ocular surface infections?. Veterinary ophthalmology, 2012, 15.3: 172-179.

4. HOFMANN-LEHMANN, Regina, et al. Calicivirus infection in cats. Viruses, 2022, 14.5: 937.

5. LESBROS, Cynthia, et al. Protective efficacy of the calicivirus valency of the leucofeligen vaccine against a virulent heterologous challenge in kittens. Veterinary Medicine International, 2013, 2013.1: 232397.

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