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A superprodutividade do fútil

Escrito por Nonah

05 JUN 2024 - 15H40 (Atualizada em 05 JUN 2024 - 15H44)

Em uma era onde se busca superprodutividade, comparando-se a performance de um atleta olímpico nos negócios, o fútil é sempre o primeiro a ser eliminado. Não há tempo para trivialidades, tempo é dinheiro, e se algo não gera dinheiro, é considerado perda de tempo.

Sem entrar no mérito de debater se deveríamos todos buscar superprodutividade, nas últimas semanas percebi a importância e necessidade das trivialidades nos negócios.

Em uma tentativa de promover bem-estar em alguns gaúchos com quem tenho contato no trabalho e que encontrei no jogo do Grêmio em Curitiba, senti o conflito de como lidar com essa situação. Será que afastar as funções do estágio era a melhor alternativa? Falar sobre trabalho nas reuniões individuais seria o ideal? E se eu falasse sobre a tragédia? Discutir política? Pedir para desabafarem sobre a dor? Nenhuma dessas alternativas me parecia minimamente confortável.

Como bem disse um gremista, será mesmo que é necessário que o Grêmio e o Inter joguem esse ano? Por que não suspender os jogos até que tudo se resolva? Como comemorar algo no meio de uma tragédia?

Como alguém que buscou superprodutividade durante muito tempo e sempre busca a forma mais eficiente de realizar uma tarefa, sempre critiquei a necessidade de dinâmicas em grupo, confraternizações de fim de ano, conversas ao redor do cafezinho, almoços longos e reuniões de trabalho sobre a vida pessoal.

Como uma novata no mercado de trabalho, percebi que a postura e o modo de pensar não são ensinados na faculdade nem formalmente. Assim, a maneira como conduzia meus grupos era baseada nos filmes, uma herança (talvez não tão crítica) da maneira de trabalhar de gerações anteriores, exagerada por Hollywood.

Small talk não se reverte em resultado, eu queria saber o objetivo, o prazo e quais recursos eu poderia usar. Não gostava de opiniões, eu buscava resultados.

Assim, passei feriados, fins de semana e férias evitando a Netflix e estudando sobre ferramentas de trabalho, técnicas de produtividade, metodologias de organização e criando um vasto repertório de assuntos extremamente técnicos. Até que me deparei com o livro “Ócio Criativo”, e comecei a observar como trabalho, estudo e diversão se misturam, como é impossível separar o trabalhador da pessoa, como é importante para os resultados no trabalho que existam momentos de trivialidade para expandir nosso conhecimento e criar ferramentas criativas para solucionar problemas. Afinal, quanto mais ferramentas, quanto mais conhecimento e principalmente experiências diversas temos, mais ferramentas estão disponíveis para nos adaptarmos. E como bem lembrou o Dr. Alex Adeodato, mencionado no último texto, são os mais adaptados que sobrevivem. No contexto de imprevisibilidade do futuro, ter um grande repertório é a saída. Eu tinha um vasto repertório de teorias, mas nenhum que servisse para conversas triviais na porta do estádio ou para distrair um pouco o time gaúcho.

Depois de um jogo de 4x0, poder ver o valor dos ingressos revertidos para doação, ver as caixas de coleta de material nos portões do estádio e participar de um momento de distração do povo gaúcho, eu vi o alívio daquelas pessoas de não falar sobre a dor, mas poder abastecer a alma com arte, sentir a união e solidariedade e retornar ao RS após um jogo de futebol, renovadas para poder ajudar mais.

Então, como eu poderia usar minha experiência fora do ambiente de trabalho para promover o bem-estar de meu time? Qual era meu repertório de trivialidades se passei tanto tempo evitando-as, se fugia de fofocas e tentava tornar os small talks o mais breve possível? Nesse momento eu quis saber sobre a turnê da Taylor Swift, o divórcio de algum famoso e a polêmica do mundo dos influencers.

Foi nessa hora que entendi quando Murilo Gun recomendou a compra da revista que você não leria no aeroporto.

No final, a reunião de estagiários foi sobre filmes e séries da Netflix (Ufa!!)

Naquele dia eu aprendi que frequentemente a ferramenta mais produtiva é não falar de ferramentas nem de produtividade.

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